Epiphanius de Salamis

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O Delicado Problema da Tradição

FONTE: SOCIETE AUGUSTIN BARRUEL.  CENTRE D’ETUDES ET DE RECHERCHES SUR LA PENETRATION ET LE DEVELOPPEMENT DE LA REVOLUTION DANS LE CHRISTIANISME. (SOMMAIRE N 2)

Qual tradição os católicos “tradicionalistas” defendem?

A palavra “tradição” é empregada por uns e outros em sentidos diferentes, de modo que ele tornou-se polivalente, designando indiferentemente o “por” ou “contra”, o “melhor” e o “pior”. O público contemporâneo não parece ter tomado consciência desta imprecisão de vocabulário, o que contribui para manter uma confusão de ideias sobre um assunto particularmente importante.

Os católicos que continuaram fiéis, aqueles precisamente que se chamam tradicionalistas, são gravemente desviados pela obscuridade de um termo tão capital na exposição da sã doutrina, pois ela tira a claridade de certas definições básicas, por exemplo: “A Igreja é guardiã da Escritura e da Tradição que são as duas fontes principais da Revelação.” É certo que se damos uma definição confusa da Tradição, fazemos da Igreja a guardiã de uma Revelação confusa.

Queremos provar que uma verdadeira companha de intoxicação é empreendida, em um grande nível pelos inimigos da Igreja, para chegar finalmente em fazer passar por verdadeira a falsa tradição.  Pensamos que seria do interesse dos católicos fiéis de esclarecer, uma vez mais, no meio da confusão que se alarga, de qual tradição eles são herdeiros e defensores. Este é o trabalho de esclarecimento que nós queremos contribuir com a presente nota.

Nosso raciocínio será, evidentemente, modelado pela fé. Em outros termos, adotaremos “a priori” o ponto de vista ditado pela fé. Constataremos “a posteriori” que nossa reflexão foi guiada e que nosso assunto foi esclarecido. O crente e o não-crente observam a mesma paisagem, mas o não-crente a vê com dificuldade e como com uma luz infra-vermelha, ao passo que o crente o contempla em plena luz do sol. É pela fé que obtemos a compreensão, segundo a fórmula de Santo Anselmo: “Crede ut inteliges”, crer para compreender. Nosso procedimento de raciocínio escandalizará os racionalistas que não querem receber nenhuma verdade “a priori”, sobretudo aquelas que vem do Céu e que não podem fazer a experiência. Mas eles não chegarão a privar o mundo de seu governo providencial e o submeter a uma série de experiências indefinidamente perseguidas.

Depois de ter eliminado o sentido etmológico que não quer dizer nada, lembraremos qual o sentido que os teólogos dão a palavra Tradição no Antigo e, depois, no Novo Testamento. Veremos em seguida, que se criou uma pseudo-tradição, tão antiga quanto a verdadeira, mas da qual o conteúdo se lhe opõe. É esta que hoje nos invade.

A tradição no sentido etimológico

Façamos uma primeira constatação. O sentido no qual a palavra de tradição é correntemente empregada pelos literários e os jornalistas, corresponde ao senso etimológico. Esta palavra é formada por “trans” – através de – e “dare” – dar. Significa literalmente: “Aquilo que é dado por transferência”. Assim, a única ideia que está realmente, inclusive nos radicais constitutivos, é aquela de transladação, de entrega, de transmissão, de passe, de transporte, de legado. O sentido etimológico não faz nenhuma alusão a natureza do que é transmitido. Em suma, ele designa um veículo que ignora de que é carregado. Ele se contenta de definir um certo modo de aquisição, de conhecimento sem dizer em que consiste. Indica somente como se lhes recebem.

E qual é este modo de recepção? É a herança. A tradição, no sentido etimológico é um legado do passado. É o conjunto do patrimônio intelectual que provêm das gerações anteriores e que chega a geração atual. Neste legado do passado se vai, evidentemente, encontrar tudo que o homem está apto a legar, ou seja, tudo o que está nele: o bom e o mal, o verdadeiro e o falso, a história e a lenda. A tradição, no sentido literal que examinamos agora, não opera nenhuma escolha nesta herança. Ela não fará obstáculo ao mal, ao falso e a lenda para deixar passar somente o bom, o verdadeiro e a história. Ela vai tudo transmitir sem distinção.

Ora, é precisamente com esta mesma falta de discriminação que a palavra é empregada no sentido corrente. Se utilizará a palavra tradição (quer seja no singular ou no plural) todas as vezes que se quiser designar um dos elementos deste legado universal da humanidade. Se falará das tradições das vestes da Bretanha, das tradições culinárias de Périgord, das tradições militares de Saint-Cyr, das tradições pagãs da África negra, das tradições marítimas dos Escandinavos, das tradições religiosas da Índia. Se dirá que, para viver com sabedoria, é preciso continuar fiel a tradição, ou seja, à “lição do passado”, ao costume, aos hábitos ancestrais. Tudo que tem um precedente no passado pode ser chamado tradicional.

É pois, no sentido etimológico que a palavra é correntemente empregada para designar os conhecimentos herdados, antigos, aqueles que se distinguem das inovações, das descobertas, das invenções modernas, as limita e a elas se opõe.

Ora, sabe-se que um grande número de espíritos, cultos ou não, alimentam instintivamente uma opinião favorável a respeito dos vestígios do passado onde condensa-se toda a experiência acumulada nos tempos antigos. É uma opinião da qual, mesmo os mais racionalistas, não podem defender-se. Há sempre um lugar no pensamento reservado para guardar o tradicional.

Quando, pois, se designar um conceito qualquer, ou todo um sistema, como saído da tradição, se iniciará um pre-julgamento favorável naqueles que temem as inovações, as novidades, as invenções, as aventuras e que veneram vagamente, mas de maneira incoercível, a sabedoria antiga. De sorte que a tradição, no sentido corrente do termo, vai apresentar uma dupla particularidade: um conteúdo absolutamente qualquer e indiferente, rico em bondade ou maldade, mas ao mesmo tempo uma julgamento favorável da experiência acumulada, de ponderação, de sabedoria, de prudência.

O professor de literatura dirá, por exemplo: “O Romantismo rompeu com a tradição clássica”. Depois, algumas páginas além, acrescentará: “O Drama de Hernani (eminentemente romântico, portanto) pertence, “de tradição” ao repertório da Comédia francesa. O Classicismo e o Romantismo serão assim englobados em uma tradição mesmo depois de ser declarados adversários. Um outro conferencista, depois de ter falado das tradições monárquicas dos Vandeanos, nos lembrará, alguns instantes mais tarde, a tradição revolucionária dos Parisienses, empregando o mesmo termo para designar as orientações opostas, mas que tem em comum o ser herdeiras de uma tradição. É preciso reconhecer que haverá algumas razões para se exprimir assim, pois, desde que ela é transmitida pelas gerações precedentes, a revolução passa a ser, no sentido etimológico, tradicionalista. E, sendo tradicionalista, ela se reveste de um julgamento favorável, ela cessa de ser uma inovação, uma aventura para passar a ser um legado e uma lição do passado.

Compreende-se assim que tantos autores, de todas orientações, invocam em favor de seu sistema, como pertencentes à tradição no sentido largo, no qual o conteúdo não pode ser constrangido por ninguém, pois que é absolutamente qualquer e indiferente. No sentido corrente, o bem e o mal são tradicionais, tanto um como o outro. E eles são, um e outro, aureolados de antiguidade por esta palavra vaga de “tradição”.

Revelação, Escritura e Tradição

Na terminologia eclesiástica, a palavra TRADIÇÃO não aplica-se a toda a herança do passado sem distinção de conteúdo. É reservado exclusivamente a parte da Revelação divina que não foi consignada por escrito e que transmitiu-se oralmente. Toda Revelação, com efeito, pode deixar dois tipos de traços: um traço escrito que vem acrescentar àquelas que foram consignadas e que formam, com ela, a Sagrada Escritura; mas igualmente um traço oral que acrescenta-se à Tradição, pois, se procurará e se recolherá, evidentemente, os menores vestígios das preciosas palavras divinas.

A Revelação divina manifestou-se em três grandes fases. Houve, inicialmente, uma Revelação primordial que foi recebida pelos Patriarcas mas que não gerou nenhuma Escritura. Depois, uma segunda Revelação que deu nascimento ao Antigo Testamento e, enfim, uma terceira, a do Messias, que gerará o Novo Testamento com o qual a Revelação pública se encerra. Cada fase viu aparecer uma forma particular de Tradição que veiculou a parte não escrita da Revelação e que a Igreja, sob sua forma de momento, passou a conservar. Com efeito, todos os historiadores da Religião estão de acordo em afirmar que a Igreja, se bem que sob formas diferentes, remonta às primeiras origens da humanidade, logo, no tempo das primeiras Revelações.

Se pois queremos definir a Tradição, devemos conhecer a cadeia desde o princípio e nos perguntar em quais condições que ela pôde ou não ter chegado até nós.

A Tradição Primordial e sua Poluição

As Revelações que foram recebidas por nossos Primeiros Pais e pelos Patriarcas que lhes sucederam não foram recolhidas por escrito. É em vão que se procurará um livro arcáico que nos dará o seu conteúdo. Elas não estão consignadas em nenhum texto oficialmente codificado por uma autoridade espiritual. Eles foram transmitidas oralmente e se pode justamente chamá-la TRADIÇÃO PRIMORDIAL.

Somente é preciso acrescentar que esta Tradição não continuou por muito tempo homogênea e única. Ela foi, desde as origens, a causa de uma divisão. A primeira manifestação desta divisão nos é relatada no livro do Gênese, é a separação dos dois cultos: o culto de Abel que é um sacrifício expiatório e aceito por Deus como constituindo a Verdadeira Religião sobrenatural e o culto de Caim que não é mais que uma oferenda de louvor e no qual se exerce somente a religiosidade natural.

De cada um destes cultos vai nascer uma tradição do qual a antiguidade será igual àquela de sua vizinha, mas o conteúdo e o espírito serão diferentes. Se for considerado somente a antiguidade e negligenciar-se o conteúdo e o espírito não se pode dar a preeminência a nenhuma das duas e, pode-se mesmo confundí-las em uma só e mesma tradição primordial sem diferenças, das quais saíram todas as religiões, todas de igual dignidade pois que derivam de uma única e mesma fonte. É evidente que uma tal confusão não é admissível pois tudo milita pela existência de duas correntes tradicionais, uma fiel a Revelação sobrenatural e outra dócil a inspiração da natureza, inclusive da natureza dos demônios que, por serem espíritos, não são pequenos em força natural.

É sempre difícil de distinguir a tradição e seu conteúdo, da religião e seu conteúdo. Se pode, em ambos os casos, empregar as duas palavras, uma pela outra, sobretudo quando se trata destes tempos antigos.

Acabamos de constatar a existência, desde a origem, de duas religiões. Estamos seguros de não desfigurá-las e desnaturalizá-las quando as chamamos, para simplificar: Religião sobrenatural, que reconhece a necessidade de um Mediador e que o espera; e outra, religião natural por qual o homem pode chegar a Deus por suas próprias forças. A distinção, a separação e a rivalidade destas duas religiões não caminham sem alguma interferência, sem dúvidas. Mas o que é certo é que suas histórias comparadas é aquela de sua separação progressiva e de suas hostilidades e não aquela de sua aproximação e de seu sincretismo.

As duas religiões, as duas tradições, pois,  realisaram a profecia que Deus fizera no momento da expulsão do paraíso terrestre quando havia falado nestes termos com a serpente: “Colocarei inimizades entre ti e a Mulher, entre a tua descendência e a dela.” (Gn, III, 15). O texto diz: “Semem” = semente, que se traduz geralmente por “posteridade”. Quais são estas posteridades? A posteridade da Mulher é Nosso Senhor Jesus Cristo, mas são também os membros de Seu Corpo místico que é a Igreja. A posteridade da serpente é o Anti-Cristo, mas também os membros de seu corpo místico, ou seja, a Besta.

A história mundial é a história do combate entre estas duas posteridades, destes dois corpos místicos. O combate é flutuante como todos os combates, ou seja, que comporta, para cada campo, alternâncias ofensivas e defensivas; o avanço de um campo corresponde ao recuo do outro. O longo período que transcorreu entre a origem até o advento do Messias é marcado pelo crescimento irresistível desta tradição composta, desta religião natural que espera atingir a Deus com suas próprias forças naturais e que não é outra coisa senão a “posteridade” da serpente. Crescimento irresistível e que arrastou, evidentemente, os povos. E a Tradição primordial que perpetua a Verdeira Religião foi abafada.

Consagremos a cada uma destas duas tradições um parágrafo que chegará até a época de Moises. Época em que chegou a promulgação da Lei escrita.

A Tradição Patriarcal

A corrente tradicional fiel é aquela dos grandes patriarcas. A Bíblia nos cita dez de Adão até Noé: Adão, Seth, Enós, Cainan, Malalael, Jared, Henoc, Matusalém e Lamec, pai de Noé. Estes patriarcas transmitiram a Revelação primordial que receberam de Adão e a enriqueceram de revelações subsequentes a eles feitos de idade em idade.

Mas esta transmissão fiel, é importante notar isto, se encontra em uma linhagem pouco numerosa e se opera enquanto que a grande maioria dos homens é arrastada para outra corrente, também tradicional e antiga, mas desviada. Corrente que tinha começado com o naturalismo de Caim. Este desvio do conhecimento religioso arrastou para uma má conduta geral, que é finalmente castigada com o Dilúvio. Embora com a saída da Arca, o patriarca Noé retoma o fio da Revelação divina e reconstitui a Religião primitiva, uma Tradição autêntica, passaremos ainda por um outro período turbulento: aquele que vai da Torre de Babel até a vocação de Abraão.

Uma questão importante nos reterá um momento: Que passa a ser a Tradição autêntica durante esse período turbulento da Torre de Babel onde a tradição pagã está em uma efervescência extraordinária? Ela volta-se para ela mesma para colocar-se ao abrigo do contágio e caminhou bem obscuramente até que chegou o momento do misterioso personagem Melquisedeque, o qual indubitavelmente, a transmite a Abraão. E com Abraão o processo de endurecimento e de separação vai aumentar ainda mais. Deus vai preparar para a Verdadeira Religião e para a Tradição que ela veicula, um lugar fechado, um povo separado dos outros, para que ela perpetue-se com toda a proteção possível, esperando que o momento marcado para seu desenvolvimento chegue.

A Tradição perpetua-se sempre sob a mesma forma oral. É importante observar que se nós conhecemos hoje o conteúdo da Revelação primitiva, não é a Tradição que o devemos mas à Escritura.

Eis o que se passou: quando acontecia a deteriorização desta Religião primitiva, deteriorização operada pelo paganismo crescente que tornou-se irresistível, Deus enviou uma nova Revelação que foi, em grande parte, consagrada a lembrar a primeira e que desta vez a fez consignar por escrito. São os livros do Antigo Testamento, mas sobretudo o do Gênese, que bem entendido, vai daí em diante, lembrar de uma Tradição jamais escrita até então. Desta vez, a nova Revelação, que é a mesma antiga mas reconstituída e completada, não será mais transmitida oralmente, mas passa a ser a Santa Escritura. Ela será conservada pela Sinagoga dos Judeus à qual Deus inspira, para este efeito, um gosto muito vivo pela exatidão literal.

Chegou o tempo de nos perguntar qual era o conteúdo desta Tradição primitiva. É, pois, o que a Escritura vai nos entregar, pois a Tradição patriarcal não chegou até nós. Os primeiros homens receberam de Deus conhecimentos, preceitos, um culto, uma profecia. O conhecimento fundamental de um Deus pessoal e criador, que exclui todo entidade metafísica do qual o universo visível seria a emanação mais ou menos direta. O conhecimento concernente ao universo e aquele dos “seis dias” que revela ao mesmo tempo o plano de construção do mundo e seu governo. Os preceitos de conduta estavam escritos diretamente e tacitamente no coração do homem. O culto é aquele do sacrifício expiatório que passou a ser necessário depois da queda. A profecia que é aquela da posteridade da Mulher que esmagará a cabeça da serpente; profecia que foi certamente o “carro-chefe” do legado espiritual que se transmitiu pelos patriarcas.

Mas a tradição continha também grandes dados históricos, ou seja, a lembrança de grandes acontecimentos que determinaram o estado do homem com relação a Deus. Os principais são o Paraíso terrestre, a Queda e o Dilúvio. A eles acrescenta-se algumas noções relativas a contagem dos tempos, como a semana de sete dias. Os arquivos da humanidade não conservaram destes acontecimentos senão lembranças lendárias e quase indecifráveis.

Tal é, em resumo, o conteúdo da Tradição patriarcal. Mas é preciso observar bem que não é graças a Tradição que conhecemos esses fatos, mas graças a Escritura, a qual não nos revela todos os episódios da história primitiva mas somente aqueles que tem importância para nossa salvação.

Eis, pois, que Moises consignou por escrito esta Revelação nova que consiste, em parte, a relembrar a primeira. Mas pode-se perguntar se podemos falar de uma nova Revelação e se Moises não se contentou somente de escrever o que havia ouvido da corrente tradicional da qual Abraão, Isaac e Jacó eram os últimos elos. Ele não buscou estes dados, como se diz continuamente, nas teogonias egípcias e caldéias para fazer, com tudo isto, uma compilação coerente?

Seguramente que não. Moises não poderia contentar-se de colocar ordem nos materiais dos quais ele poderia humanamente dispor. Houve sim uma revelação verdadeira em uma época precisa onde a Revelação primordial, já desconhecida na corrente tradicional infiel do paganismo luxuriante. Estava também quase no ponto de apagar-se completamente na corrente fiel. Pode-se assim assegurar que a Tradição não patriarcal não seria conhecida sem o socorro da Escritura. Claro que ela não desaparecera completamente, pois que, a vemos reaparecer nas pessoas dos Reis Magos, Gaspar, Melchior e Baltazar, que tinham, ao menos recolhido o essencial, a saber: a profecia de um Salvador. Mas continuava no estágio dos vestígios isolados sem influência sobre a Revolução que se espalhava.

A Tradição Poluída

Paralelamente a corrente tradicional fiel que é aquela dos Patriarcas, circula uma outra corrente, também tradicional e que poder pretender a mesma antiguidade que ela. Também ela provém do desdobramento inicial da religião, a saber do julgamento feito por Deus sobre os sacrifícios respectivos de Abel e de Cain. A corrente poluída deriva do sacrifício de Cain e ele carrega, quanto a seu conteúdo, todas as noções que podem gerar a religiosidade natural e do homem.

O conteúdo desta tradição desviada nós não conhecemos os detalhes, mas dois episódios vão nos permitir de perceber todo o conjunto. O primeiro é o Dilúvio; o segundo, a Torre de Babel.

O texto bíblico que fornece a informação do estado geral da humanidade antes do Dilúvio tem uma inscrição que diz pouco mas que significa muito: “Deus viu que a malícia dos homens era grande sobre a Terra e que todo o pensamento de seus corações era a cada instante dirigido para o mal.” (Gn VI, 5). E mais adiante: “A Terra se corrompeu diante de Deus e se encheu de iniquidade. Deus olhou a Terra e eis que estava corrompida, pois toda a carne tinha corrompido seu caminho sobre a Terra.” (Gn VI, 11-12).

Corrupção, malícia, iniquidade: estas palavras designam, claro, a má conduta nos costumes, mas igualmente a fonte de onde decorre esta má conduta, ou seja, a perversão das concepções religiosas: “Toda carne tinha corrompido seu caminho.” E quais eram essas formas religiosas pervertidas? Nenhum documento nos revela em detalhes mas é certo que estas desativações afetavam ao mesmo tempo os conhecimentos, os preceitos, o culto e a profecia, que formavam a trama da Religião primitiva. Elas não diferenciavam muito do paganismo que reflorescera muito depois do Dilúvio e que conhecemos bem.

O segundo episódio nos permitirá esclarecer quais foram as concepções da religião e da tradição que foram desviadas. O que encontramos no “Grande Designio” dos construtores de Babel? Duas noções importantes: uma concernente a Deus e outra ao homem.

Encontra-se em seus designios o desejo de honrar a Deus, de chegar a Deus. Mas por meios completamente humanos: “Façamos uma torre cujo o cume alcançará o céu.” (Gn XI, 4). Esta religião estabelecida pelo homem, não parte dos conhecimentos, dos preceitos, do culto e da profecia revelados por Deus. Ela tem Deus por objetivo mas não O tem por base. Ela corresponde, ao contrário, exatamente a esta reprovação da Escritura: “O culto que me rende este povo é um preceito aprendido dos homens.” (Is XXIX, 13).

Encontra-se ai igualmente, pode parecer muito curioso para uma época tão afastada da nossa, um incontestável humanismo, fruto da razão humana: “Celebremus nomem nostrum antequam dividamur um universas terras – celebremos nosso nome antes de sermos dispersos pela terra.” (Gn XI, 4), que significa “celebremos nosso nome”? Eles querem erigir, à glória da humanidade, um monumento semelhante a torre elevada à glória de Deus. Muitos exegetas pensam assim.

Sabe-se também que neste época se produzia um florescimento prodigioso do politeísmo e do panteísmo (sobretudo na forma imanentista) os quais fazem muito bem o negócio dos demônios que, não podemos negar, estão presentes em seu nascimento e sua difusão. É evidente que a religião de Babel, deles está toda impregnada.

Não é difícil compreender porque Deus não quis a unidade e a religião de Babel. Existem duas grandes razões.

Primeiramente, esta unidade e religião são, em última análise, aquelas de seu adversário. No período de Babel, a Tradição primitiva estava em curso de abafamento sob a exuberância do florescimento do paganismo, a qual, com suas composições humanitárias, panteístas e politeístas, constituía o que podemos chamar de pandemonium.

Em segundo lugar e sobretudo, Deus tinha um plano completamente diferente, que tinha profetizado no dia seguinte a Queda. Este plano é o envio do Verbo Incarnado sobre a Terra, misteriosamente designado pela expressão: “A posteridade da mulher.” Tudo gira em torno disto. Toda religião, toda tradição, por antiga que seja, que pretender outra coisa e que espera outra coisa, não é a verdadeira.

Estas duas grandes razões permitem melhor compreender a vontade de Deus que admira a primeira vista. Como! A humanidade era unida e religiosa e ele desejava que continuasse. E eis que Deus mesmo desloca esta unidade e esta religião. Mas justamente, havia dois importantes motivos. Não há nenhuma dúvida que a dispersão foi vontade expressa de Deus. O texto bíblico merece ser lido e retido: “O Senhor desceu para ver a cidade e a torre que os filhos de Adão edificavam; e Ele os disse: ‘Eis um povo unido e de uma só língua; eles o começaram e não abandonarão seu projeto em quanto não acabá-lo. Venhamos, pois, desçamos e confundamos aqui mesmo sua língua afim de que cada um não mais entenda a língua de seu vizinho’. Assim o Senhor dispersou sobre a extensão da terra e eles cessaram de construir a cidade. E se chama este lugar de Babel porque ali foi confundida a língua de toda a terra; e daí o Senhor os dispersou por toda a Terra.” (Gn XI, 5-9).

A religião de Babel era a conclusão da tradição desviada era a última manifestação global. Pois, depois da dispersão, tradições particulares se elaborarão, umas no Oriente, outras no Ocidente. Mas o que é comum a estas tradições particulares tem muitas chances de provir da religião de Babel.

Os pensadores modernos que dizem que precisamos voltar a uma tradição primitiva comum a todas as religiões, não fazem outra coisa senão nos enviar ao antigo estado de pandemonium onde em que se encontravam antes de Deus os dispersar.

A Tradição da Sinagoga

Nós deixamos Moises no momento onde fixava por escrito, sob o ditado de Deus, a Tradição patriarcal. Ele abre um período de revelações progressivas que deveriam durar até as proximidades do advento do Messias, e do qual a codificação foi realizada com uma impressionante precisão do clero da Sinagoga.

Uma questão coloca-se a nós que procuramos identificar todas as formas da Tradição. Todas as revelações que se produziram durante a Antiga Aliança, não nasceram elas, além dos livros devidamente codificados, de uma tradição oral que seria como um “baú” de onde se tiraria relíquias? Existe uma tradição judia que teria, com relação aos livros do Antigo Testamento, a mesma posição relativa a que a Tradição Apostólica tem com os livros do Novo Testamento?

Certamente é assim, com efeito, mas somente em uma certa medida. A Escritura deu a luz, na Sinagoga como mais tarde na Igreja, a comentários dos quais os autores forçosamente procuraram todos os vestígios de revelação que poderiam escapar à codificação escrita. Em geral, tudo que poderia servir à compreensão do Texto Sagrado. Se deveria, pois, nestes numerosos relatos de comentários (evitemos as palavras sábias) encontrar matérias para o estabelecimento de uma tradição judia.

Infelizmente estes comentários são extremamente heterodoxos. Sem dúvida que encontramos alguns vestígios da Revelação. Nota-se, por exemplo, a existência, em certos relatos, atos de justiça que são verdadeiramente atribuídos a Moises. Mas estão aglutinados, em muito maior número, a uma multidão de lendas e de desenvolvimentos onde se encontra mais de teosofia pagã que de monoteísmo bíblico. Damos como exemplo os dez sephirots dos quais é impossível saber se são representações das perfeições divinas ou espíritos emanados de Deus e co-criadores com Ele. Sendo assim, o princípio da Criação ex-nihilo desapareceria.

De tal sorte que existe, materialmente, uma cabala, ou seja, uma tradição judia, mas ela não se alinha verdadeiramente nem com a Tradição primordial, nem com a Tradição apostólica. Ela está, sobretudo, na linha da tradição pagã da qual reproduz a complexidade e a exuberância. De sorte que passa a ser verdadeiramente muito difícil de ir a ela.

Por que é assim? Por que a Sinagoga, que vemos tão atenta a codificar os textos revelados com uma exatidão irreprovável, foi tão desonesta e tão impotente na elaboração de uma tradição que andasse de par com a Escritura?

Existem duas razões que estão ligados mas que não se pode distinguir muito claramente. Primeiramente, a compreensão do Antigo Testamento, do qual a Sinagoga registrava a letra com tanto cuidado, não é dado senão pelo Novo. O Novo Testamento rege o Antigo, mesmo vindo cronologicamente depois. Ele realiza as profecias e, pois, esclarece quase todas as passagens. Antes da redação do Novo Testamento não era possível compreender plenamente o Antigo.

De mais, a Sinagoga não foi beneficiada pela Assistência do Espírito Santo. Esquece-se disso continuamente. Ela não estava colocada sob o mesmo regime que a Igreja dos Gentis. A Igreja vive sob o regime da Nova Aliança que é eterna e espiritual e que deve atingir a formação do Corpo Místico de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou seja, a Jerusalém Celeste; ela não é assistida pelo Espírito Santo, o qual o papel é fazer compreender o que Nosso Senhor disse: “Ele vos lembrará o que Eu vos ensinei.” A Sinagoga não tinha esta assistência. A Antiga Aliança era carnal pois tinha por objetivo a formação do Corpo Físico de Nosso Senhor em uma raça eleita para este efeito. O Espírito Santo ainda não tinha sido enviado por Jesus elevado ao céu.

Estas duas razões explicam a falta de habilidade da Sinagoga em compreender sua própria Escritura, em fornecer um comentário  que pudesse esclarecer e edificar uma tradição e preencher a lacuna entre a Tradição patriarcal e a Tradição apostólica.

O Divino Mestre fez sobre a tradição dos antigos um julgamento severo: “E vós, por que violais o mandamento de Deus em nome de vossa tradição?” (Mt XV, 3). Julgamento que São Paulo reitera e  completa nestes termos: “Ficai atentos que ninguém vos surpreenda pela filosofia e por ensinamentos enganosos, segundo uma tradição humana e segundo os rudimentos do mundo e não segundo Cristo.” (Col XI, 8).

Seremos levados a retomar esta questão da Cabala quando estudarmos a formação da Tradição apostólica. Concluamos provisoriamente dizendo que a tradição da Sinagoga contém, certamente, algumas pedras preciosas que seriam muito interessantes em descobrir, mas que estão, geralmente, mergulhadas em um enorme lodaçal.

A Codificação da Revelação Messianica

Todo mundo sabe que Nosso Senhor nada escreveu. Seu ensinamento era oral e foi oralmente que se transmitiu durante todo um primeiro período. Depois vem um tempo onde certos, entre Apóstolos e Discípulos, constataram a necessidade de deixar escritos: scripta manent. Estes escritos, para a redação dos quais receberam de Deus um carisma particular que lhes valeu o título de “escritores sagrados”, formaram o Novo Testamento. Os livros dignos de fazer parte do Novo Testamento foram limitativamente escolhidos pelo Magistério da Igreja primitiva; são chamados “livros canônicos”; terminam com o livro do Apocalipse de São João com a qual a Revelação pública é fechada.

Este trabalho de composição só foi possível graças a assistência do Espírito Santo. Pois era necessário escolher entre os documentos de valor muito desigual, aqueles que poderiam garantir, como “sendo sem misturas de erros”. Uma tal escolha não poderia ser feita e uma tal garantia não poderia ser dada senão por instâncias eclesiásticas assistidas pelo Espírito Santo.

Para certos textos, o Magistério hesitou durante longo tempo. O caso mais ilustre desta hesitação é “O Pastor” de Hermas. Hermas é um dos primeiros Padres Apostólicos. Se dá esse nome de “Padres Apostólicos” àqueles Padres da Igreja que conheceram pessoalmente os Apóstolos. Hermas compôs um diálogo doutrinal e moral chamado de “O Pastor” que durante muito tempo foi acreditado como Inspirado, por isso, pertencente ao canon das Escrituras. Foi preciso esperar o Papa Gelasio para que a decisão fosse tomada de o afastar definitivamente. O Papa dava como motivo, não que esse texto fosse inteiramente mal, certamente não, mas somente que não era absolutamente isento de todo erro.

Qual sorte deveria ter os livros da Sinagoga? Nosso Senhor ensinara que viera para realizar as profecias, para cumprir a Lei e aperfeiçoá-la. Convinha, pois, estender a canonicidade, com todas as suas garantias, à Lei e às profecias, ou seja, aos livros do Antigo Testamento.

A garantia de inspiração dada pela Igreja arrasta uma série de consequências. A Sagrada Escritura passa a ser a fonte principal onde podemos encontrar a Revelação divina, pois que, nenhum outro documento é revestido da mesma garantia. Desde então, pode-se entregar estes textos a uma exegese extremamente profunda, pois é certo que nenhuma destas palavras foi colocada ao acaso. Ela passa a ser, assim, uma fonte inesgotável de meditação.

O Ensinamento Oral dos Apóstolos

Os escritores sagrados, ou seja, os autores dos livros canônicos não consignaram por escrito todas as palavras de Nosso Senhor, nem relataram todas as suas ações. Eles dizem exatamente isso. Citemos, entre outras provas, esta passagem de São João: “Tinha muitas coisas a lhe escrever, mas não quero fazê-lo com tinta e pena. Espero ir ver-te em breve e então falaremos de viva voz.” (III Jo 13,14).

Está fora de dúvida que os Livros canônicos não contém, em seu conjunto, o ensinamento dos Apóstolos. Primeiramente, alguns Apóstolos nada escreveram e se contentaram em pregar. Suas pregações foram recolhidas por diversos autores que não tem o qualitativo de “escritores sagrados”. E aqueles Apóstolos que escreveram também pregaram; possuímos pois, vindo deles, “cartas” que agora fazem parte das Escrituras, e também de pregações de viva voz que ficaram somente para a Tradição oral. Encontra-se nitidamente em São Paulo a menção destas duas fontes: “de viva voz e por carta”. “Irmãos, ficai firmes e conservai o ensinamento que de nós recebestes, seja por escrito ou por viva voz.” (II Tes. II, 15).

Nos Livros canônicos os escritores sagrados não disseram tudo que sabiam. Eles também utilizaram o ensinamento oral do qual, é bem evidente, que a Igreja vai procurar diligentemente os traços.

A Criação da Tradição Apostólica

Autores de qualidades e funções bem diversas escreveram sobre os mesmos acontecimentos que são o objeto dos Livros santos. E eles o fizeram com uma das duas intenções seguintes:

– Seja para relatar sobre uma outra forma, a mesma coisa que outro escritor sagrado já tinha escrito;

– Seja para consignar por escrito o que os Apóstolos já tinha ensinado de viva voz.

É o momento de observar que estes dados não são ditos ‘tradicionais’ porque ficaram orais enquanto os Apóstolos viviam. Mas depois de um certo tempo, foram escritos também. E foram colocadas os textos, os quais vamos analisar a diversidade.

Criou-se toda uma reserva de documentos que, apesar de não ter o benefício da inspiração maior do Espírito Santo, foram compostos com muita competência, atenção e piedade, pelos ouvintes dos Apóstolos e seus Discípulos. Foram tomados, desde o princípio, em grande consideração pelo Magistério, pois formavam uma parte do ensinamento de Nosso Senhor que não se encontra na Escritura.

Esta reserva documentária não constitui, por ela mesma e tomada em conjunto, a Tradição, mas é nela que o Magistério vai buscar, quando tiver necessidade, os traços desta Revelação messiânica do qual ela tem a guarda, que não quer deixar nada escapar, mas que encontra, com efeito, os elementos dispersos. São estes traços que, reunidos, levam o nome de Tradição Apostólica.

O reconhecimento da Tradição como segunda fonte de Revelação (o primeiro é a Sagrada Escritura) é uma característica da Igreja Católica. As escolas protestantes são divididas sobre este ponto; alguns admitem uma certa tradição mas a limitam a alguns textos; a maioria é hostil, mesmo a noção, de tradição, contra a qual se coloca o adágio “sola scriptura”. Assim, é bom dar algumas provas da antiguidade deste reconhecimento da Tradição Apostólica.

Santo Agostinho: “Há muitas coisas as quais a Igreja é firmemente apegada, e que é autorizada, por consequência, a olhar como ordenado pelos Apóstolos, mesmo elas não tendo sido transmitidas por escrito.” (De Bapt.  V – 23 – 31)

São Basílio: “Eu considero como apostólico o se apegar firmemente, mesmo as tradições que não estão contidas na Sagrada Escritura.” (XVII – 66 – Mig. 32 – 188).

Santo Epifâneo: “A Tradição, ela também, é necessária, pois não é possível absorver tudo da Escritura; é por isso que os Santos Apóstolos nos deixaram uma parte de seus ensinamentos por escrito e o restante por meio da Tradição.” (Haer. LXI – 6 – Mig. 41 – 1057).

Os séculos que sucederam-se não mudaram a doutrina. Ainda era a mesma no Concílio de Trento: “A Igreja recebe com o mesmo respeito e com a mesma piedade os Livros santos e a Tradição sobre a fé e os costumes que nos vem de Jesus Cristo pelos Apóstolos, ou que os Apóstolos nos deixaram por inspiração do Espírito Santo.

Assim, pois, para constituir o cânon das Escrituras, o Magistério da primitiva Igreja aceitou somente textos onde tudo era absolutamente irreprovável, ou seja, onde tudo levava a marca evidente da inspiração divina. Este rigor necessário deixou escapar documentos menos cuidadosamente compostos, onde autênticos fragmentos da Revelação Messiânica se misturavam com passagens de interpretação humana. Estes documentos, não sem misturas de erro, não puderam receber a mesma garantia. Eles formam uma reserva onde a Igreja tirará a Tradição.

Um abundante Inventário

É tempo de perguntar-nos de quais elementos se compõem a vasta reserva documentária na qual a Tradição apostólica utiliza. Notemos que a Igreja jamais publicou oficialmente um inventário limitativo destes documentos. Aqui, o uso fez a lei.

O primeiro lugar, nas fontes da Tradição, cabe evidentemente aos “Padres Apostólicos”, que frequentaram os Apóstolos. Se houve personagens que poderiam recolher sua pregação, foram estes. Citemos, por exemplo, para fixar a ideia, São Policarpo, que conheceu São João Evangelista e que, em seguida, por seu discípulo, foi fundada a Igreja de Lyon. Os “Padres Apostólicos” foram testemunhas das testemunhas de Jesus. Eles tem, pois, na transmissão da Tradição, um lugar particular. Eles não formularam, propriamente falando, a Revelação; também não são escritores sacros, mas recolheram os mesmos fragmentos sob uma forma não canônica.

Os “Padres” que os sucederam também figuram entre as fontes. Este título de “Padre da Igreja” não é conferido oficialmente. É uma denominação fundada sobre o uso. O título de Doutor, ao contrário, é conferido oficialmente depois de um procedimento muito estrito. Certos personagens da antiguidade cristã são, ao mesmo tempo, Padres e Doutores da Igreja. Citemos, por exemplo, os quatro grandes Doutores gregos: São Basílio Magno, Santo Atanásio, São João Crisóstomo e São Gregório Nazianzeno; os quatro grandes Doutores latinos: São Jerônimo, Santo Ambrosio, Santo Agostinho e São Gregório Magno. Quando se procura qual é a tradição, sobre um certo dado, se interroga sempre estes grandes personagens.

Uma outra fonte da Tradição reside nos Símbolos. São resumos da fé que se faz aprender “de cor” pelos catecumenos no momento do Batismo. Citemos os três mais antigos: O Símbolo dos Apóstolos, do qual se possui duas versões, o “textus antiquior” e o “textus receptus”, o Símbolo Niceno-Contantinopolitano, confirmado no Concílio de Éfeso e que se canta na Missa latina, o Símbolo de Santo Atanásio que começa pelas palavras: “Quem quiser ser salvo” e que penetrou no Breviário latino.

As liturgias das Missas, das Horas e os Sacramentos, mesmo os sacramentais constituem uma das fontes mais seguras e das mais ricas da Tradição. Dom Guéranger dizia que a Liturgia é a Tradição em seu mais alto grau de fidelidade. Ela é, em todos os lugares, constituída sobre o mesmo modelo e com as mesmas peças essenciais. A apostolicidade das mais antigas liturgias estão completamente fora de dúvida. Elas foram, durante um certo tempo, transmitidas oralmente e mesmo por escritos, por prudência e por respeito, para não colocar os “Santos Mistérios” em lugar público: é o que se chamava “a disciplina de Arcano.”

Outra fonte da Tradição é, sem dúvida, as atas, relatórios, as “considerações”, dos primeiros Concílios Ecumênicos:

– O Concílio de Nicéia, em 325, afirma a divindade de Jesus Cristo contra Ário, que a negava;

– O Concílio de Constantinopla, em 381, afirma a divindade do Espírito Santo contra Macedônio, que a negava;

– O Concílio de Éfeso, em 431, afirma a Maternidade divina da Santíssima Virgem, contra Nestório que dizia que a Virgem fôra somente Mãe da pessoa humana de Nosso Senhor;

– O Concílio de Calcedônia, em 451, afirma as duas naturezas na pessoa de Jesus Cristo, contra Eutíques que ensinava que em Jesus Cristo a natureza divina tinha feito desaparecer a natureza humana (Monofisismo).

Este abundante inventário não é limitativo. Poderíamos citar muitas outras peças: as inscrições funerárias, a hagiografia, a arquitetura dos monumentos cristãos e até o texto dos apócrifos, que não são negligenciáveis.

As Duas Funções da Tradição

A Escritura e a Tradição contêm, uma e outra, uma parte da Revelação divina. É evidente que estão em harmonia uma com a outra e que esta harmonia permite que se esclareçam mutuamente. A Tradição se comporta, ora como explicativa, ora como completiva.

A Tradição será explicativa quando disser, em termos diferentes ou semelhantes, pouco importa, os mesmos fatos que a Escritura; ela ajudará então na interpretação, em lhe esclarecer o sentido; sob esse ponto de vista foi extremamente frutuosa e ainda continua a ser.

A Tradição será completiva quando enriquecer com dados novos o conteúdo revelado da Escritura, ou seja, quando conter elementos que a Escritura não contêm, como acabamos de ouvir Santo Agostinho, São Basílio, Santo Epifânio. Entre estes complementos cita-se:

– A lista dos livros do Novo Testamento (com efeito, a composição do cânon das Escrituras não é escriturário mas tradicional, coisa curiosa);

– O número septenário dos Sacramentos;

– A doutrina do Anjo da guarda;

– A doutrina do Purgatório;

– A doutrina da Imaculada Conceição, etc;

Estes complementos, com efeito, são periodicamente necessários. É uma necessidade que existe de sempre encontrar o novo. É uma necessidade vital de assimilar um alimento sempre renovado. É certo que a Igreja, que ainda não atingiu suas dimensões definitivas e, do qual mesmo o dogma tem a mesma necessidade, resentem uma fome de enriquecimento. Quantas vezes lemos, nos Intróitos ou nas Coletas das Missas esta expressão: “Canticum novum cantabo.” (Cantarei um cântico novo). A novidade é necessária. O problema é saber onde iremos encontrá-lo. Os modernistas respondem: “No mundo. Imitando o profano.” Os católicos fiéis tem a sua disposição uma fonte de água viva: a Tradição! “Todo escriba, discípulo do Reino dos céus, é semelhante ao pai de família que tira de seu tesouro coisas novas e velhas”. (Mt. XIII, 52).

Este Tesouro é a Revelação. O velho é o que a Igreja já tirou. O novo é o que Ela tira quando o momento chegar para cantar um cântico novo.

Em Virtude da Promessa de Assistência

Quais serão as regras e os critérios que a Igreja irá se servir para reconhecer os vestígios da Tradição apostólica no meio desta massa de escrito, de tantos autores diferentes? Para que uma crença seja reconhecida tradicional, ou seja, apostólica, é preciso que satisfaça a duas condições essenciais: a antiguidade e a universalidade. Cita-se também, por vezes, duas outras condições: a concordância e a perpetuidade, mas elas podem ser incluídas nas duas primeiras.

Mas é evidente que estes critérios de antiguidade e universalidade não fazem mais de diminuir o problema. Aplicados sistematicamente e sem a assistência do Espírito Santo seriam insuficientes para tomar uma decisão tão importante e de uma natureza tão sobrenatural. É pois, em virtude das promessas que foram feitas que a Igreja poderá empreender uma tal discriminação.

E como o Espírito Santo agirá? Observaremos somente duas particularidades de sua ação: 1° – Ele não acrescenta nada às Palavras de Cristo; 2° – Ele opera invisivelmente.

1° – Falando do Espírito Santo que enviaria, Jesus diz: “Ele vos ensinará as palavras que vos ensinei.” O Verbo anunciou palavras bem misteriosas em sua origem e é o Espírito Santo que dá a inteligência. Ele faz compreender que Nosso Senhor se contentou em exprimir. Mas Ele não ensina coisas novas, coisas que Nosso Senhor não teria dito.

2° – Sempre se admira, quando se observa as coisas da Igreja, em constatar esta mistura de ordem e desordem. Sob certa aparência, tudo ai se desenvolve como se fosse uma instituição unicamente humana, com as servidões, hipotecas, com escritos catastróficos; alguns repletos de verdadeiro sobrenatural, outros com um maravilhoso inventado; opiniões divergentes, situações estagnantes,  decisões que não acontecem jamais…

Mas sob o brilho da fé, a Igreja do Verbo Incarnado aparece, como Ele, verdadeira divina e humana ao mesmo tempo. Pois o resultado global desta aparente desordem é a criação de um admirável corpo de textos notoriamente inspirados. A assistência do Espírito Santo foi invisível enquanto se exercia, mas é visível em seus efeitos: “attingit fine usque ad finem, fortiter suaviterque disponens omnia – atinge de uma extremidade a outra, dispondo todas as coisas com suavidade e força.”

Que se diz das revelações privadas? Levam modificações ao depósito da Revelação Pública que foi declarada encerrada? Pode-se responder pela negativa. As revelações privadas tem uma grande importância na Igreja. Elas, entre outras influências, suscitaram numerosas festas litúrgicas. Mas jamais inovam. Ela cultivam somente germes já presentes na Escritura e na Tradição, das quais ela segue a lógica o máximo que é preciso.

Tomemos como exemplo a devoção e o culto ao Sagrado Coração de Jesus, que teve sua impulsão com as revelações “privadas” feitas a Santa Margarida Maria Alacoque, sob o reinado de Luis XIV. Esta devoção foi notada já em Santo Agostinho, mas pode remontar ainda mais alto, pois que, o Coração de Jesus (“latus” no texto de São João XIX, 34) tem as honras da Escritura. São João mesmo, remonta a ainda mais alto, pois que ele cita, a propósito do golpe da lança dado na Paixão, um texto do Antigo Testamento: “Videbunt in quem transfixerunt.” (Jo. XIX, 37). É um texto do profeta Zacarias, XII – 10, que a Vulgata anuncia de uma maneira ainda mais admirável: “et aspicient ad me quem confixerunt.”

O Papel dos Heréticos

Munidos das regras de discriminação e assegurados pela assistência do Espírito Santo, o Magistério irá procura, na massa documentária da qual falamos, os elementos da Tradição Apostólica e vai as reunir e coordenar. Mas fará Ela um trabalho de triagem de uma única vez e de um só golpe para todas, como foi o caso dos Livros Santos?

A Tradição apostólica não foi formulada de uma vez por todas. Somente quando foi necessário que a Igreja definiu tal ou qual ponto. Esta necessidade, como aparece? Ela é criada continuamente pelos hereges, que tem um papel, involuntário, de levantar novos problemas, os quais dão soluções novas, não apostólicas e falsas. Eles obrigam, assim, a consultar a Tradição para saber qual era, neste caso particular, a opinião dos Apóstolos. Sua intervenção leva a tornar a doutrina mais precisa. Eles tem, pois, um papel providencial na história. É preciso que hajam escândalos; infeliz somente, por quem eles chegam. A Redenção é um mistério.

“Ouço dizer que, quando se reune vossa assembléia, há desarmonias entre vós. E em parte eu acredito. É necessário que haja entre vós hereges para que se possam manifestar aqueles que são realmente virtuosos.” (I Cor XI, 18-19).

Se reclama hoje dos modernistas. Eles operaram, com efeito, uma grande destruição na Igreja. Mas é preciso um pouco de paciência e se perceberá que as questões para as quais deram falsas respostas, a Igreja pode as resolver tirando-as do “tesouro do pai de família onde encontra-se do novo e do velho…”

Uma  Tradição Expurgada

A Igreja dos Gentis adotou a tradição da Sinagoga como prólogo a sua própria Tradição, da mesma maneira que adotara os livros do Antigo Testamento como prólogo aos do Novo? Ela não o fez. Por que? Por razões que já conhecemos mas que é bom explicar sucintamente aqui.

O divino Mestre, nós o vimos, fez um julgamento severo sobre a tradição dos antigos. Ele os acusa de ter “anulado” a Lei, o que já é uma reprovação grave. Mas ainda há pior.

A qual impulsão, com efeito, os escribas e fariseus respondiam quando anulavam a Lei por causa de sua tradição? Nosso Senhor o disse. Esta impulsão não era simplesmente humana, ela provinha do “pai da mentira”. Poderíamos multiplicar as citações da Escritura neste sentido. Contentemo-nos com esta que é menos conhecida mas tão demonstrativa quanto as outras: “Vós percorreis mares e terras para fazer um próselito e, quando conseguis, fazeis dele um filho do inferno duas vezes piores que vós mesmos.” (Mt. XXIII, 15).

Conhece-se, pelos historiadores e pela Escritura, a importância das infiltrações do paganismo entre os judeus. Não pela letra da Escritura, evidentemente, pois que eles conservavam com um escrúpulo milimétrico, mas em todos os comentários que eram feitos. Nosso Senhor ainda acentua a diferença quando declara, falando dos doutores da Lei: “Façam o que eles dizem, mas não façam o que eles fazem.” Façam o que eles dizem pois a Lei escrita é exata, mas não façam o que eles fazem pois sua interpretação é má. E nestas condições, se compreende que a Igreja, não tenha tomado a “tradição dos antigos.”

Escritores eclesiásticos de todas as épocas conservaram uma secreta atração pelas “pedras preciosas” que ainda são encontradas enterradas nos cascalhos da Cabala. Escutemos Dom Mouléon, que ninguém poderá suspeitar de algum desvio:

“Sem dúvida, é preciso reconhecer, estas tradições, consideradas em seu conjunto, não são mais que um tecido de absurdos, de mentiras e de contos para fazer crianças dormirem. Que percorre suas páginas, rapidamente descobre o excesso que arrasta à extravagância, à desmedida, e ao maravilho que soa falso. Entretanto, seria um erro crer que tudo deve ser desprezado; sob peripécias grotescas e ridículas destas histórias, se esconde um fundo de verdade; há algumas pepitas de ouro sob a terra árida. Uma crítica que condena todo o conjunto, sem discernimento, renega seu próprio nome. Seu papel consiste em filtrar este depósito vindo dos judeus e reter o que tem chances de ser verdadeiro e rejeitar todo o resto. Assim fizeram os Padres da Igreja, assim fizeram São Jeronimo, Santo Efrém e vários outros ainda depois deles, que souberam discernir, na confusão dos escritos rabínicos, detalhes, precisões, anedotas, que completaram o texto sagrado, o esclarecer, o polir e lhe dar um novo sabor.” (Dom Mouléon, em “Os Patriárcas”, pag. 26).

O problema foi colocado e se vê que não somente de hoje, mas as tentativas de solução foram sempre infrutíferas. Foram, pelo contrário, nefastas. Relembremos somente obras como “A Cabala Desnudada” de Knorr von Rosenroth (1677) que a influência se misturará aos rosa-cruzes para elaborar o espírito das primeiras lojas maçônicas.

Este problema da Cabala é ainda complicado pelo fato que ela nos é conhecida somente por textos estabelecidos por rabinos da Idade Média, que se esforçavam para fazer introduzir, surdamente, uma hostilidade ao cristianismo.

O perigo de tudo o que é cabalístico vem de suas indefiníveis divindades intermediárias que são os sephirots; elas conduzem fatalmente ao panteísmo ou ao politeísmo, ou aos dois ao mesmo tempo, e se voltam contra a noção essencial “patriarcal” e “cristão” ao mesmo tempo, de um Deus pessoal e Criador.

Se compreende que a Igreja tenha se mantido afastada deste possível contágio e que não tenha assumido a guarda de uma tradição da qual o Divino Mestre acabava de manifestar sua desconfiança.

É pois muito importante observar que a Tradição apostólica não admite qualquer coisa. Ela não veicula o vai-e-vem das ideias circulantes. Ela não se sobrecarrega com costumes e hábitos inveterados. Ela permanece como uma dos dois meios para reconhecer a Revelação divine, a outra sendo a outra a Sagrada Escritura. Seu conteúdo é escolhido e continua pois é vigiado, o que lhe é possível, pois que é administrado por instâncias eclesiásticas certas de ser assistidas pelo Espírito. Só uma Tradição existe neste caso. Todas as outras, faltas desta vigilância e assistência, acabam por descarrilhar para qualquer lado, mesmo tendo uma certa medida de universalidade e antiguidade.

Timeo Danaos et Dona Ferrentes

Os inimigos da Igreja, atacaram todas as instituições, materiais e espirituais: dogma, hierarquia, sacramentos, implantação territorial, tudo… a Tradição é um objeto de ataque muito bem estudado. E portanto, uma apoteose de tradições que se nos apresentam de todos os lados. É sob seu nome e sob sua velha bandeira que se quer reunir todos os inimigos, a Revolução.

Ora, nós vimos que há duas tradições: uma da qual a Igreja é guardiã e da qual o conteúdo é ortodoxo; a outra, que tem a mesma antiguidade, mas que o conteúdo é composto. Não podemos, sob o pretexto de combater a Revolução, fazer abandonar os católicos fieis a ortodoxia e adotar, por pequenas etapas insensíveis, a tradição composta.

O perigo não é ilusório e poderíamos fornecer numerosos exemplos. Retenhamos somente duas expressões, correntemente empregadas hoje, que contém em germe, um declínio fatal e que são utilizadas, por uns sem malícia, por outros com malícia. Ouve-se dizer: “tradição cristã” e “tradição viva”, sempre em um contexto muito admirado, e que, alias, chega a iludir. Examinemos uma e depois outra.

A “tradição cristã” não é o verdadeiro nome que se quer designar assim. O verdadeiro nome é “Tradição apostólica”. Se, com efeito, designa-la como apostólica, a Tradição da qual se fala é nitidamente definida quanto a seu conteúdo: se trata desta parte da Revelação que não está contida nas Escrituras. Assim definida, ela veicula, não concepções humanas, mas noções divinas.

Se for designada somente como “cristã”, a tradição não é mais estritamente apostólica. Ela estende seu conteúdo que passa a ser largamente eclesiástico, e pode-se compreender os costumes, bons ou maus, os hábitos, bons ou maus, e todo tipo de aquisição desde que sejam religiosas e que apresentem o mínimo de antiguidade. Ela não é mais submetida à ortodoxia e lhe pede somente uma “máscara” cristã no conjunto.

De sorte que a tradição, também dita cristã, irá possuir a mesma definição daquelas outras religiões, a que se perguntam se não transmitem uma Revelação precisa e para quem não se contenta com uma simples antiguidade. O futuro nos dirá se temos razão de desconfiar da “tradição cristã” ou se o perigo é somente ilusório.

A “tradição viva” é um outro nome que se dá a mesma coisa. A expressão é habilmente combinada mas não traduz a verdade. 

Vimos que a Tradição apostólica não foi fixada de uma vez por todas. Ela tem documentos em reserva da qual a lista limitativa não nem mesmo relatada oficialmente e de onde o Magistério vai tirar a formula na medida das necessidades. Conclui-se que a tradição é variável e que ninguém pode prever as surpresas que ela reserva.

Mas atenção, não se trata de uma verdadeira variabilidade, pois a mudança não pode ter lugar senão no sentido de enriquecimento; um enriquecimento, ou seja, um processo que não comporta eliminação. Quando uma noção, uma vez reputada tradicional pelas autoridades de direito com as provas de apostolicidade que se impõem, ninguém, jamais, lhe retirará sua “tradicionalidade”. Se trata, pois, de alargamento da mesma natureza. Não existe alargamento sem estabilidade.

Se, ao contrário, qualificamos de “tradição viva” vamos submetê-la a um processo vital, ou seja, a uma alternância de assimilações e de eliminações; uns provocando os outros. Devemos pois tolerar que ele se desfaça, periodicamente,  de um certo número de elementos que “não fazem parte do tempo” e que serão substituídas por novos. Eis a tradição que passou a ser evolutiva. Não se tratará mais de uma alargamento mas de um turbilhão. E não venham nos dizer que estamos inventando um perigo imaginário: a grande argumentação das altas instâncias vaticanas era, ultimamente ainda, de colocar um princípio, que vá de si mesmo, que é a quinta essência da Tradição, na Igreja, era de evoluir e de adaptar sempre e sempre…sem dúvida, como as nuvensinhas de fumaça no vento da história.

Muitos elogios envenenados deveríamos mencionar. Escolhemos somente dois: “tradição cristã” e “tradição viva”. Timeo danaos et dona ferrentes.

Conclusão

Devemos responder a esta questão: “Qual tradição os católicos tradicionalistas defendem?”

Pensamos ter mostrado, ao menos em grandes linhas, que esta Tradição é própria da Igreja. Nenhuma outra religião tem partilha com ela. Ela caracteriza-se de duas maneiras: por seu conteúdo e pelas modalidades de sua formação.

Quanto a seu conteúdo, a verdadeira Tradição é constituída por fragmentos da Revelação divina que escaparam a codificação escrita e que, por consequência, foram transmitidas por via oral durante um certo período.

Quanto as modalidades de sua formação, a Tradição deve seu nascimento a três processos que correspondem  às três fases da Revelação divina.

A Tradição primordial ou patriarcal não nos é conhecida diretamente sob a forma tradicional, somente pelas Escrituras. É dela que se faz menção no Canon da Missa, na oração “Supra quae propitio.” Esta oração é recitada sobre as oblatas, pelo celebrante, depois da Consagração. Ela se coloca logo depois da “Unde et memores” e antes de “Supplices te rogamus”. Eis a tradução: “Sobre estas ofertas, dignai-Vos lançar olhar propício e complacente; aceitai-as, assim como Vos dignastes aceitar os dons do justo Abel, vosso servo, o sacrifício de Abraão, nosso pai, e o que vos ofereceu o vosso sumo sacerdote Melquisedeque, sacrifício santo, hóstia imaculada.”

O Antigo Testamento também deu lugar a uma tradição, mas esta não se conservou incólume. Ela foi sobrecarregada de elementos profanos e pagãos que tornaram extremamente difícil procurar os vestígios da Revelação divina que ela possa conter.

O Novo Testamento, ao contrário, se completa pela Tradição apostólica que não tem outro ensinamento senão o que recebeu oralmente dos Apóstolos. Ela se difundiu em ampla coleção de documentos da paleografia cristã da qual a exploração não foi, teoricamente ao menos, terminada.

A Tradição dos Apóstolos forma, com a dos Patriarcas, um conjunto homogêneo, que constitui precisamente esta verdadeira Tradição que os católicos fiéis são defensores.

Paralelamente a esta corrente ortodoxa, foi criada uma outra corrente que passou a chamar-se “pseudo-tradicional” e que difere, evidentemente, em seu conteúdo e seu modo de constituição. O conteúdo da “pseudo-tradição” não é homogêneo; é composto, é mixto. Ele é constituído de três partes, misturadas mais ou menos intimamente. Ai encontramos vestígios deformados da Revelação divina, como por exemplo, concepções panteístas sob uma forma geralmente imanentista. Ai encontramos elocubrações humanísticas como a da Torre de Babel. Também encontramos produtos de uma falsa mística, ou seja, de uma mística demoníaca, que é a fonte da mitologia politeísta.

Logo, esta pseudo-tradição veicula, misturados no conjunto, todas as produções da religião natural.

Quanto a seu modo de constituição, pode-se dizer que a pseudo-tradição está em seu direito quando reclama a mesma antiguidade que a Verdadeira. Todas duas tem o mesmo ponto de partida que é o julgamento de Deus sobre os sacrifícios de Abel e de Cain. A pseudo-tradição é hoje defendida, sob o nome de tradição esotérica por pensadores eruditos que a consideram como a fonte de todas as religiões não cristãs. Mas ela não tem fundamento para a Igreja que é a guardiã de uma Tradição essencialmente antagonista a esta. É mesmo uma característica particular da Igreja, em todas as épocas, de ser mantida separada da fonte comum das falsas religiões.

Se era absolutamente necessário relembrar estas definições é porque assistimos a uma manobra que tende a desnaturalizar e a transformar a verdadeira Tradição. E como pode-se desnaturalizá-la? É introduzindo elementos não divinos, mas religiosos, como por exemplo, costumes eclesiásticos. É preciso, pois, que seu modo de formação passe a ser evolutivo no lugar de continuar como ensina a Escritura: o tesouro do pai de família de onde tira-se coisas novas e velhas.

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